Primeiras lições a um alquimista

texto de Douglas J. Baquião Ribeiro

Ora, lege, lege, relege, labora et invenier” (Ore, leia, leia, releia, trabalhe e encontrarás).

Alquimia

Alquimia

A palavra alquimia se faz presente em diversas culturas sempre demonstrando semelhanças em seus elementos. Uma das hipóteses mais aceitas a respeito da origem do termo relaciona tanto alkemie do francês antigo,  alkimia do latim medieval quanto al-kimiya do árabe à expressão al Khen, significando “o país negro” - como era conhecido o Egito na antiguidade - remetendo a Hermes Trimegisto, que foi chamado de o primeiro alquimista. Outros argumentam que kimiya estaria relacionado a transiliteração síria da palavra grega khemeioa ou khumeia , que se relaciona com a arte de fundir metais. Enquanto uma terceira versão da palavra é referenciada como tendo origem no hebraico  kim Yah, sendo traduzida como “ciência divina”. A ideia de uma conecção entre as origens do conhecimento alquímico e o judaísmo foi difundida entre os alquimistas árabes durante a idade média, que viram nesta etimologia uma possível confirmação para suas convicções. Dessa forma, era costume atribuir a origem mítica da alquimia aos anjos que se rebelaram contra Deus, ao patriarca Enoch, ao Rei Salomão ou a outro personagem bíblico que transmitiu à humanidade os conhecimentos secretos dos minerais e metais. A alquimia é a arte de trabalhar e aperfeiçoar os corpos com a ajuda da natureza. O papel do alquimista é se empenhar no desenvolvimento em dois planos simultaneamente, matéria e espírito devem evoluir juntos. Antes de tudo a alquimia é uma arte filosófica, uma maneira diferente de ver o mundo. Sendo uma técnica é, por isso, uma arte prática. Como tal, ela assenta sobre um conjunto de teorias relativas à constituição da matéria, à formação de substâncias inanimadas e vivas, etc.

Tudo que constitui o universo é formado por matéria, mesmo que revestida de energia. Assim como os atomistas, os alquimistas dizem que a matéria é constituída de uma unidade comum a todas as substâncias. Esta é a premissa do principal postulado da alquimia, “Omnia in unum” (Tudo em Um).

É pretendido pelos alquimistas alcançar a unidade comum da matéria, podendo arranjá-la de modo que ocorram transmutações. A criação de quaisquer substâncias a partir da matéria primordial sugere a constância das transformações do universo, corroborando a máxima de Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”

De acordo com um dos preceitos citados na Tábua da Esmeralda: “É verdadeiro, completo, claro e certo. O que está em baixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está em baixo, para realizar os milagres de uma única coisa”. Os alquimistas tentam reproduzir a criação do universo considerando o caos primordial como sendo semelhante à uma pedra bruta que seria transformada na pedra filosofal, ou seja, o macro seria passível de se repetir no micro.

Não se afirma que esta pedra filosofal seria um objeto, mas um estado de consciência atingido pelo par alquimista e pedra. Sendo assim, o chumbo que pretendiam transmutar em ouro, não seria apenas o chumbo material usando técnicas laboratoriais, mas sim o chumbo do ego no ouro da essência através da evolução do ser. Este longo processo de produção da pedra filosofal foi chamado de A Grande Obra.

O ouro é considerado o mais perfeito dos metais pois dificilmente se oxida, não perde o brilho e acredita-se que todos os outros metais evoluem naturalmente até ele no interior da terra. Portanto, a transmutação é considerada um processo natural. Os alquimistas somente aceleram este processo, realizando as transmutações em seus laboratórios. A transmutação de qualquer metal em ouro e o elixir da longa vida são na realidade coisas minúsculas diante da compreensão do que somos. Na alquimia busca-se o entendimento da natureza, a sabedoria, os grandes conhecimentos, sendo o estudante de alquimia um andarilho a percorrer as estradas da vida.

O alquimista possui a capacidade de penetrar a substância e modificar a freqüência da energia. O resultado prático da alquimia interior é que ela ensina a transformar energia destrutiva em construtiva, portanto ela se constitui em um dos elementos que trabalha para melhorar os homens e o planeta. O uso dos instrumentos da palavra falada, da visualização e outros, transforma o ódio em amor, a sexualidade em sensibilidade, o medo em criatividade e alegria. Pois a energia é elevada a um padrão de vibração superior e vai atingindo vibrações cada vez mais elevadas, até o ponto da transmutação.

O verdadeiro alquimista é um iluminado, um sábio que compreende a simplicidade do nada absoluto. É capaz de realizar coisas que a ciência e tecnologias atuais jamais conseguirão, pois a Alquimia está pautada na energia espiritual e não somente no materialismo e a ciência a muito tempo perdeu este caminho.

A Alquimia é uma Arte que se utiliza de grande número de símbolos, e por isso mesmo muitas vezes há referências a ela com o nome de Ars Symbollica. Um dos grandes símbolo da Alquimia é a borboleta, sendo um caractere da metamorfose. Outro dos símbolos que mais aparecem nos trabalhos de Alquimia é a figura do hermafrodita, ou andrógino, lembrando a dualidade universal presente em toda matéria.

A alquimia é de difícil compreensão porque seus ensinamentos referem-se, ao mesmo tempo, às operações de laboratório e ao caminho de uma evolução psíquica e espiritual. Portanto os ensinamentos devem ser interpretados em todos os aspectos. A observação mais acurada da natureza de todos os seus fenômenos e manifestações deve fazer parte do dia-a-dia do estudante, ou seja, ele deve sempre estar atento as transformações, aos ciclos astrológicos (do sol, da lua, dos planetas) e terrestres ( da água e dos nutrientes) e aos pequenos detalhes (dos animais, vegetais e minerais), pois todo o conhecimento alquímico, inclusive sua linguagem, provém destas observações e sabendo interpretá-las fica mais fácil compreender a alquimia.

Encontrar a pedra filosofal significa descobrir o segredo da existência, um estado de perfeita harmonia física, mental e espiritual, a felicidade perfeita, descobrir os processos da natureza, da vida, e com isso recuperar a pureza primordial do homem, que tanto se degradou na Terra. Portanto, a Grande Obra eleva o ser à mais alta perfeição: purifica o corpo, ilumina o espírito, desenvolve a inteligência a um ponto extraordinário e repara o temperamento.

Podemos levar anos até começar a perceber que nada sabemos, vamos então começar imediatamente pois o prêmio para os que conseguirem é o mais alto de todos.

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03 2009

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